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sábado, 30 de novembro de 2019

Tardes e Noites (Arquivos)



Noite 1 

Celular na mão, cabeça nas nuvens, não sei onde está meu coração não quero pensar nele. Ok, alguém me chamou, ele é bonito, sinto-me desejado, faço piada, aviso aos amigos, pego metrô estou na casa dele. 
Ele é simpático, conversamos, fizemos o que tínhamos que fazer, foi legal. 

Tarde 1  

Celular na mão, entro no ônibus, estou animado, está chovendo, acho o endereço dele, fica numa praça, trocamos poucas palavras, fizemos o que tínhamos que fazer, foi bom, coloco a roupa, vou embora. 

Tarde 2 

Saio do consultório, celular na mão, ele apita, uma foto, fico curioso, ando até a sua casa, era diferente, ele também é bonito, passamos a tarde conversando, no final nos beijamos, fizemos o que tínhamos que fazer, foi legal.
Vou embora. 

Noite 2 

Celular na mão, ele apita, o cara é legal, sobe até o meu andar, fomos pra escada, seu toque é diferente, sinto o gosto da bebida, é legal, ele fica animado, eu fico também, fizemos o que tínhamos que fazer, vou embora. 

Noite 3 

Celular na mão, ele me manda mensagem, quero encontra-lo, não posso encontra-lo. Celular na mão, coração acelera, não é legal, a conversa é tensa, quero encontra-lo, não posso encontra-lo. 

Noite 4 

Ele pergunta se estou bem, quero encontra-lo não posso encontra-lo. 

Noite 5

Quero encontra-lo. Não posso encontra-lo. Não vou encontra-lo.

Noite 6?

Não, não quero noite seis. Quero que acabe.

Sentimentos em pixel. (Arquivos)



      Seus dedos gordurosos deslizam por sobre mim, passam imagens de um lado para o outro, eu queria poder falar com eles, mas eles nem sequer sabem que eu consigo falar, os pixels se condensam, os códigos são enviados e através de mim surgem diante de seus olhos ansiosos e cansados.
       Sorrisos, legendas, #gratidão, #lifestyle, ostentação, apresentações, exposição moderada, curte ou próximo? Chama ou ignora? Responde ou bloqueia? Follow or unfollow? Essas são as decisões que eles geralmente tomam ao deslizarem seus dedos por mim.
        Meu dono particular é um homem, seu dedo sobe e desce, olha as fotos, troca mensagens, envia fotos, espera respostas... Nada. Estou agoniado, não consigo dizer. Ele exclui o aplicativo e então libera parte da minha memória, ah como estou feliz em esquecer-me daquilo, no entanto seus dedos deslizam novamente na madrugada, e lá está ele de novo, match ou next, curte ou bloqueia, espera eu fazer um barulho, atenta-se aos meus sons, e nada sai dali, eu não consigo controlar os códigos que surgem pra ele, as letras que formam palavras que formam frases, que formam ideias, eu só transmito, não tenho controle.
       Mas... Se pudesse, se pudesse ter apenas um minuto, se pudesse interrompê-lo no meio da troca de fotos, de mensagens, que artificializam e dão a falsa sensação de realidade e conexão, se pudesse usar os dados moveis para projetar a minha voz eu diria para ele que não importa o quanto os seus dedos febris deslizarem por sobre mim nem o quanto seus olhos se encontrarem cansados depois de tanto tempo em contato com a luz que eu emito. Eu iria dizer para ele uma única verdade: Não existe amor aqui.

O mundo segundo Saint Laurent. (Arquivos)



           Os corpos são magros e esguios, altos, nos momentos de desespero parecem retorcidos, as expressões profundas nos rostos magros quase cadavéricos, emoldurados por cabelos enormes, cacheados, crespos, lisos, desgrenhados, molhados. As peles brilham ao serem tocadas pela luz, negras ou brancas como se estivessem cobertas por óleo, mas as veias não deixam de saltar, os olhos não deixam de demonstrar o desconforto ou apatia enquanto suas figuras se cruzam umas com as outras dentro daquele frame, em alguns momentos na água iluminada por luzes roxas, sobre a cama ou dentro de um labirinto de branco.
          Eles se tocam, se enxergam, se sentem como se fosse à última vez que iriam fazer aquilo, flutuam pela psicodelia das cenas que protagonizam, os corpos sempre em movimento, embalados pela música, pelo prazer, ou pela euforia, tudo se mescla. O que nos resta por fim são as cores e as roupas.
         Preto e branco, plumas, largo e justo, transparência, brilho, óculos escuros em ambientes fechados, alfaiataria e jeans, seda e moletom, perfeitamente concebidos e alinhados naqueles corpos sexualmente tensos, e nada, absolutamente nada deixa de estar devidamente bem vestido.

A Pedra (Arquivos)



Se faz arenosa em sua derme, rígida, dura e sedimentar, envolve-a com a palma de sua mão, o atrito causado pela parte pontiaguda da rocha faz brotar dos poros o vermelho bordô, seu pulmão se enche e então esvazia-se novamente seguidas vezes, um pé a frente e outro atrás, preparando-se para um salto violento que não iria dar, fechou os olhos os gritos de fora ecoavam dentro de sua mente, o coração como uma britadeira, e a força surgindo de onde achava-se que não restava nada, sentiu naquela pedra o peso de toda uma história, inclinou o cotovelo para trás, o ângulo perfeito, o vento de fim de tarde bagunçou os seus cabelos a trilha sonora exterior tendo como nota principal os dós agudos e disformes das siren(e)as serviram como estimulo no exato momento em seus dedos embalados pelo impulso de seu antebraço soltaram o pedaço de algo magmático e ele voou, batendo contra a parede transparente formada majoritariamente por areia e carbonato de sódio. Ela estilhaçou e foi como se as luzes que gritavam em vermelho acima dos carros do Estado dessem brados de vitória. 

Eu queria ir para Paris.

Expressões que se confundem. 
Sorrisos que amarelam-se até se apagarem. 
Uma confusão, exótica, divertida, elegante... Intelectual.
Mas nunca amada, desejada, respeitada.
Um corpo que se expõe ao calor e a chuva da metrópole fracassada. 
Um corpo fácil de se machucar. 

As vezes... Eu queria ir para Paris, onde os meus sorrisos seriam brilhantes e os meus cabelos celebrados.  Onde eu não iria passar pela triagem normativa, onde relacionar-me deixaria de ser degradante e eu poderia conceder amor e o privilégio do toque ao meu corpo para pessoas realmente dignas. 

Em Paris, eu seria amado, respeitado, adorado. Em Paris, meu (tre)jeitos seriam admirados. Em Paris a confusão talvez não fosse acontecer, e eu não ia sentir-me como uma experiência exótica que deve ser vivida por alguém, nem parte da dinâmica absurda de se relacionar. Vamos ver uma equação: 

X + Y = Sexo desorientado. 

A + B = Relacionamento problemático. 

Em que desequilíbrio X levam as pessoas a se relacionarem com Y e insegurança A levam as pessoas a se relacionarem com B. Pessoas = Homens. Já que eles sempre se sentem mais pessoas do que qualquer outra pessoa. 

Em Paris eu poderia respirar arte. Uma vez me disseram que eu não faço parte daqui, que eu não deveria estar aqui. É verdade. Eu não me sinto parte de nada que isso projeta em mim, talvez em Paris eu me sentisse parte de algo. 

Em Paris, amor talvez signifique respeito, fidelidade e cuidado. Em Paris, talvez exista empatia. Em Paris, talvez existam homens como eu. Talvez em Paris eu não me sinta como uma colcha velha de retalhos. Uma colcha nova de retalhos talvez. Uma colcha renovada de retalhos. Já que não tem como fugir dos retalhos, rasgos e quebras. Em Paris talvez, fosse mais fácil parecer e ser tratado como novo. 

Em Paris, muitas coisas seriam melhores para mim, longe de todos eles, longe das pessoas que sou obrigado a me relacionar, pois apenas tenho elas para me relacionar. Em Paris as pessoas vão ao terapeuta e trabalham as suas merdas pra não provocarem merdas nos outros. Tudo seria tão diferente em Paris... Que não sei mais se essa Paris é realmente real.