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sábado, 30 de novembro de 2019

Sentimentos em pixel. (Arquivos)



      Seus dedos gordurosos deslizam por sobre mim, passam imagens de um lado para o outro, eu queria poder falar com eles, mas eles nem sequer sabem que eu consigo falar, os pixels se condensam, os códigos são enviados e através de mim surgem diante de seus olhos ansiosos e cansados.
       Sorrisos, legendas, #gratidão, #lifestyle, ostentação, apresentações, exposição moderada, curte ou próximo? Chama ou ignora? Responde ou bloqueia? Follow or unfollow? Essas são as decisões que eles geralmente tomam ao deslizarem seus dedos por mim.
        Meu dono particular é um homem, seu dedo sobe e desce, olha as fotos, troca mensagens, envia fotos, espera respostas... Nada. Estou agoniado, não consigo dizer. Ele exclui o aplicativo e então libera parte da minha memória, ah como estou feliz em esquecer-me daquilo, no entanto seus dedos deslizam novamente na madrugada, e lá está ele de novo, match ou next, curte ou bloqueia, espera eu fazer um barulho, atenta-se aos meus sons, e nada sai dali, eu não consigo controlar os códigos que surgem pra ele, as letras que formam palavras que formam frases, que formam ideias, eu só transmito, não tenho controle.
       Mas... Se pudesse, se pudesse ter apenas um minuto, se pudesse interrompê-lo no meio da troca de fotos, de mensagens, que artificializam e dão a falsa sensação de realidade e conexão, se pudesse usar os dados moveis para projetar a minha voz eu diria para ele que não importa o quanto os seus dedos febris deslizarem por sobre mim nem o quanto seus olhos se encontrarem cansados depois de tanto tempo em contato com a luz que eu emito. Eu iria dizer para ele uma única verdade: Não existe amor aqui.

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